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Você está fazendo compras no shopping com seu filho. Ele vê um brinquedo que você não pretende comprar. E, de repente, você está no centro de um acesso de raiva violento, com todas as pessoas ao redor te observando. Afinal, a birra é normal? Até que ponto?

A birra é a expressão da frustração de uma criança com suas limitações ou raiva por não ser capaz de conseguir o que quer. Muitas vezes, a criança tem dificuldade para descobrir algo, concluir uma tarefa ou mesmo não encontra palavras para expressar seus sentimentos. A frustração pode desencadear uma explosão, resultando em um acesso de raiva.

Para crianças mais velhas, as birras podem ser um comportamento aprendido. Se você recompensa os acessos de raiva com algo que seu filho deseja, ou permite que seu filho saia das situações fazendo birra, os ataques de raiva provavelmente continuarão.

No entanto, crianças extremamente desafiadoras, teimosas ou respondonas podem ter desenvolvido esse padrão de comportamento em função de um transtorno chamado Transtorno Desafiador de Oposição (TOD). Como essa questão levanta muitas dúvidas e preocupações nos pais, é muito importante que eles busquem ajuda de especialistas para não fazerem especulações errôneas.

O TOD é uma condição caracterizada por padrões recorrentes de comportamento negativo, geralmente direcionadas a figuras de autoridade na vida da criança, como pais, professores e outros adultos. 

Mesmo em crianças muito bem-educadas, fases rebeldes são inevitáveis no decorrer do seu desenvolvimento. Entretanto, quando esse comportamento é constante e difícil de ser articulado, gerando prejuízos na vida familiar, escolar e nos relacionamentos, é necessário ficar atento.

Nos casos de TOD, as crianças costumam reagir de forma agressiva quando têm suas vontades frustradas e resistem intensamente a regras e imposição de autoridade. Quanto à idade, segundo a literatura, o TOD costuma aparecer ainda em idade pré-escolar, geralmente antes dos 10 anos.

Quanto às causas, ainda não foram descobertas causas genéticas, mas certamente o ambiente é fator fundamental para estimular um comportamento difícil. Gritos, expressões de raiva e repreensões hostis, são vistos como assustadores. A criança fica acuada e, aos poucos, internaliza esses comportamentos como normais, repetindo as atitudes.

Os sintomas de Transtorno Desafiador de Oposição são variados e devem persistir por pelo menos seis meses para que sejam associados ao transtorno e não a comportamentos ocasionais da infância.

A criança tem dificuldades para compreender regras e opiniões de terceiros, não lida bem com frustração e expressa seu desconforto de maneira agressiva. Outros sinais: discutir com adultos, perder a calma com facilidade, desafiar regras e instruções, importunar outras pessoas, provocar adultos e outras crianças, reagir a repreensões com agressividade ou manha exagerada, não saber expressar suas emoções intensas sem gritar, transferir a culpa de seus atos para terceiros, ficar ressentido com facilidade, ser cruel ou vingativo ocasionalmente, sentir-se culpado e chorar após ter uma atitude ruim.

E qual a melhor maneira de responder a uma birra?

Normalmente, é manter a calma. Se você responder com explosões de raiva em voz alta, seu filho pode imitar seu comportamento. Gritar só piora as coisas. Em vez disso, diminua o tom de voz e tente distraí-lo. Se ele está batendo ou chutando alguém ou tentando correr para a rua, pare o comportamento segurando-o até que ele se acalme. Quando ele se acalmar, explique novamente as regras.

Se a birra aumentar e o acesso de raiva fugir ao controle, retire a criança da situação e dê a ela um tempo limite, de acordo com a idade (considere dar um minuto de intervalo para cada ano de idade da criança). Sente-a em um local calmo, sem distrações (Ex.: chão do corredor). Espere ela se acalmar. Depois, discuta brevemente o motivo dela estar ali e porque o comportamento foi inadequado. 

Na hora da crise de raiva, os pais não devem conversar nem discutir, porque a criança está impermeável a qualquer palavra que é dirigida a ela. É preciso dar um tempo para ela se acalmar.

O diálogo pode ser uma ferramenta poderosa e conversas francas são melhores que expressões intensas de raiva.

Condutas adequadas devem ser elogiadas de forma expressiva para que a criança compreenda e aos poucos assimile.

Evite dizer não a tudo. Para dar ao seu filho um senso de controle, deixe-o fazer escolhas: “Que blusa vamos colocar hoje: a vermelha ou a azul?”, “Você gostaria de comer morango ou banana?”, “Do que vamos brincar?

Podemos passar também, dependendo da idade da criança, algumas dicas de controle emocional, por exemplo, respirar profundamente, contar até dez antes de explodir ou mesmo tentar expressar o que sente em palavras e pedir ajuda aos adultos quando estiver se sentindo mal.

Quando é necessária a ajuda profissional?

À medida que o autocontrole da criança melhora, as birras devem se tornar menos frequentes. A maioria das crianças começa a ter menos acessos de raiva aos 3 anos e meio. Se o seu filho está causando danos a si mesmo ou a outras pessoas, com atraso no desenvolvimento cognitivo e escolar, problemas de relacionamento familiar ou piora dos acessos de raiva após os quatro anos de idade, compartilhe suas preocupações com o médico da criança.

O tratamento do TOD é feito de maneira multidisciplinar com medicamentos, apoio psicológico e suporte escolar.

Com base em sua experiência pessoal, a psicopedagoga Luciana Brites (mestranda em distúrbios do desenvolvimento pela Universidade Mackenzie) e o neurologista infantil Clay Brites (membro titular da Sociedade Brasileira de Pediatria e doutor em Ciências Médicas pela Unicamp) escreveram o livro “Crianças Desafiadoras” (Gente), em que apontam a diferença entre birra e o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e discutem os papéis da família e da escola, além das formas de tratamento.

Fica a dica de leitura aos pais e interessados no assunto.

Dra. Silvia Saullo
Patologista Clínica/Clínica Médica

Referências:

  1. Kliegman RM, et al. Birras e feitiços de prender a respiração. In: Nelson Textbook of Pediatrics. 21ª ed. Elsevier; 2020. https://www.clinicalkey.com. 
  2. Altmann T, et al., Eds. Comportamento. In: Cuidando de seu bebê e criança pequena: do nascimento até os 5 anos de idade. 7ª ed. Bantam; 2019.
  1. “Seu filho faz birra ou tem um transtorno?”
    Seu filho faz birra ou tem um transtorno? – O Liberal.
  1. “Acessos de raiva em crianças: Como manter a paz”
    Critical Care – Mayo Clinic Acessos de raiva em crianças: como manter a paz (criticalcare2017.com.br).

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