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Enfrentando a pandemia num mundo que já era desafiador…

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma síndrome que atinge o neurodesenvolvimento e é caracterizada por deficiências na interação e na comunicação social. Considerando a complexidade dessas alterações e a especificidade do trabalho educativo que se faz com elas, os limites colocados pela pandemia trouxeram muitos desafios para as famílias, mas, ao mesmo tempo, a possibilidade de construção de estratégias metodológicas individualizadas que possam favorecer o desenvolvimento dessas crianças.

A existência de uma rotina é muito importante na vida de um autista.
Com a necessidade de prolongar o isolamento social, as famílias de crianças e adolescentes portadores de TEA enfrentam grandes desafios para amenizar o impacto do quadro e manejar a situação.

É o que nos relata um artigo publicado pelo Grupo de Trabalho de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). A publicação é sobre como esse contexto pode afetar as crianças portadoras do transtorno, exatamente por serem muito sensíveis às mudanças e alterações do seu cotidiano.

Lembrando que o autismo em si não é um fator de risco para a COVID-19, sendo que crianças e adolescentes com TEA têm sintomas semelhantes aos de outras crianças sem o transtorno. No entanto, as características do autismo podem criar dificuldades quando se trata de medidas preventivas, como as alterações de funções sensoriais. Um autista pode apresentar grande interesse pelo odor, sabor e textura de objetos, sendo comum observá-los passando a mão em tudo e levando utensílios à boca. Essa prática aumenta a possibilidade de contaminação e os pais devem estar atentos às questões de higiene, mantendo os ambientes ventilados e evitando compartilhar objetos. 

Assim, mudanças de rotina ou mesmo a introdução de medidas preventivas (uso da máscara, lavar as mãos com frequência, etc.) exigem muita paciência e dedicação dos cuidadores, pois grande parte dos autistas apresentam resistência a mudanças e muitos exigem manter de forma rígida suas rotinas.

Transformações repentinas no cotidiano podem provocar alterações emocionais e comportamentais, deixando a criança ou adolescente mais agitados, ansiosos e agressivos.
Portanto, os especialistas recomendam que, mesmo tendo que implantar novas medidas, é importante tentar seguir o máximo possível a rotina vivenciada antes da pandemia e prepará-los para algumas alterações inevitáveis. Um recurso que podemos usar é um quadro de planejamento com as atividades do dia, por exemplo, diminuindo a angústia e trazendo calma e conforto à criança.

Com relação às atividades escolares, muitos são assistidos por professores de apoio educacional especializado e material escolar adaptado. Para crianças e adolescentes autistas que têm acesso às aulas à distância, é interessante manter as atividades propostas, seguindo os mesmos horários e respeitando os hábitos de rotinas anteriores. Se não existir esse recurso, buscar alternativas junto à escola. Além disso, manter o vínculo e o contato social dos autistas com outras crianças utilizando videochamadas ou telefone é fundamental.

Explorar a criatividade e exercitar a paciência e perseverança, tanto consigo mesmo como com o outro, são ingredientes fundamentais para o nosso objetivo. Uma das características dos autistas é a presença de padrões limitados de interesse e a dificuldade de se apropriar do mundo simbólico, tornando as brincadeiras monótonas e repetitivas. Por isso, o artigo alerta sobre a importância dos pais desfrutarem de tempo livre para ensinar o valor simbólico dos brinquedos e explorar possibilidades lúdicas.

O documento oficial do Ministério da Saúde intitulado “Linha de Cuidado para a atenção integral às pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo e suas famílias no Sistema Único de Saúde (SUS)” traz vários esclarecimentos sobre o assunto.

Podemos aproveitar as atividades do dia como oportunidades de aprendizado.
Sugerir a participação e colaboração da criança nas tarefas domésticas, respeitando o nível de desenvolvimento e capacidades, pode ser benéfico. Atividades físicas, tanto dentro de casa como ao ar livre, também são bem-vindas.

Finalmente, lembramos que, apesar de todos os desafios que essa pandemia nos trouxe, existe uma proximidade entre pais e filhos autistas, assim como a descoberta de novas possibilidades interpessoais de desenvolvimento. Sempre vamos nos deparar com algum obstáculo que podemos, com certeza, transformar em aprendizado e fonte de recursos para o aprofundamento dos vínculos afetivos.

Dra. Silvia Saullo
Patologista Clínica/Clínica Médica

Referências:

Academia Brasileira de Neurologia. Os desafios da pandemia da Covid-19 para autistas. 30 jun. 2020.
Disponível em: https://www.abneuro.org.br/post/os-desafios-da-pandemia-da-covid-19-para-autistas.
Acesso em: 08 abr. 2021. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Linha de cuidado para a atenção às pessoas com transtornos do espectro do autismo e suas famílias na Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde.
Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 156 p.
Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_atencao_pessoas_transtorno.pdf.
Acesso em: 08 abr. 2021.