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Mesmo depois de quase dois anos, a Covid-19 ainda é uma doença relativamente nova, com questões diversas que desafiam a ciência e a medicina.

Vários estudos divulgados nos últimos meses, junto com a observação clínica dos profissionais da linha de frente, indicam as possíveis sequelas que a doença pode deixar, ainda que não seja possível dizer se elas são temporárias ou definitivas.

Uma pesquisa publicada recentemente no periódico JAMA Network (“Sequelae in Adults at 6 Months after Covid-19 Infection”) mostrou que 30% dos participantes ainda relataram sintomas nove meses depois de contraírem a doença. A maior parte dos indivíduos acompanhados pelo estudo tiveram casos leves de doença.

A fadiga e a dispneia (falta de ar) são os sintomas mais comuns relatados, porém, outras queixas podem aparecer, como a falta de olfato ou paladar, dor nas articulações, ou mesmo disfunções específicas de órgãos, envolvendo principalmente coração, pulmões e cérebro.

Do ponto de vista da patogênese, essas complicações podem ser consequência da invasão direta dos tecidos pelo vírus, inflamação profunda e tempestade de citocinas, dano relacionado ao sistema imunológico, estado hipercoagulável descrito em associação com a COVID-19 grave, ou uma combinação desses fatores.

O coordenador do Centro de Cardiologia e Centro de Tratamento Pós-Covid do grupo Leforte, Dr. Heron Rached, vê um paralelo entre a gravidade da infecção e as sequelas deixadas.

“Pacientes com infecções mais graves vão apresentar mais sequelas, a relação é proporcional. Mas isso não quer dizer que pacientes com infecções moderadas não apresentem”, diz.

Um outro estudo também publicado no JAMA Network (“Long-term health consequences of Covid-19”) mostra pacientes pós-Covid submetidos a tomografias cardíacas.

Dentre esses, um terço havia sido hospitalizado e o restante recebeu atendimento em pronto-socorro ou se tratou em casa: 78% deles tinham alguma sequela no coração.

“O importante desse estudo é mostrar que mesmo os pacientes que não apresentam nenhuma manifestação clínica desta alteração podem ter uma sequela que não foi documentada. Precisamos ver como esses efeitos vão evoluir daqui a cinco ou dez anos,” diz Rached.

A durabilidade e as consequências de tais achados de imagem ainda não são conhecidas e é necessário um acompanhamento mais longo.

Em abril deste ano, foi publicado um estudo sobre a função pulmonar, no “European Respiratory Journal”, indicando que a redução da capacidade pulmonar era uma das principais consequências observadas, mesmo entre aqueles que não chegaram a ficar em estado crítico. 

Esse fenômeno já foi observado em epidemias causadas por outros coronavírus (SARS, MERS), em que as sequelas se estenderam por meses ou anos em alguns casos.

Mais recentemente, um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) verificou que entre 143 pacientes avaliados na Itália, apenas 12,6% haviam sido internados em UTI, mas 87,4% relataram persistência de pelo menos um sintoma, entre eles a fadiga e a falta de ar, mais de dois meses depois de terem alta.

Muitos desses pacientes retornam às atividades do dia a dia, mas relatam cansaço e veem sua produtividade e qualidade de vida afetadas. 

A eles, os médicos têm recomendado que façam exercícios físicos, respeitando as limitações do momento, e tentem pouco a pouco desafiar o organismo para recuperar o condicionamento. Mas ainda não se sabe por quanto tempo esses sintomas podem se estender.

Nos casos mais graves, é possível que haja sequelas permanentes, como a fibrose pulmonar, uma doença crônica caracterizada pela formação de cicatrizes no tecido pulmonar. 

Com isso, o pulmão expande menos ou com mais dificuldade e, consequentemente, há perda de eficiência nas trocas gasosas. Com a redução da capacidade respiratória vem a falta de ar e o cansaço frequentes.

O período prolongado no hospital também aumenta as chances de outro problema: a síndrome pós-UTI. 

Os sintomas vão desde a perda de força muscular, alterações da sensibilidade e da força motora por disfunção dos nervos até depressão, ansiedade, alterações cognitivas, prejuízo da memória e capacidade de raciocínio.

No Brasil, uma força-tarefa do Instituto de Cérebro do Rio Grande do Sul (Inscer), vinculado à PUC-RS, investiga uma série de sintomas neurológicos que vão desde a confusão mental e dificuldade cognitiva ao delírio, e quais sequelas podem ficar destes sintomas. 

Outra complicação neurológica que os médicos têm observado é a ocorrência de acidentes vasculares cerebrais (AVC). Por alguma razão que os cientistas ainda desconhecem, o SARS-CoV-2 aumenta a tendência de coagulação do sangue.

Enfim, os pulmões são uma espécie de “marco inicial” para o SARS-CoV-2. Uma vez que o vírus consegue atravessar nossa barreira imunológica e se instala no pulmão, ele segue fazendo estragos em outros órgãos.

Um artigo publicado na revista Science destaca que as regiões mais vulneráveis do corpo seriam aquelas ricas em receptores ECA2 (Enzima conversora da angiotensina 2). 

Além dos pulmões, ECA2 também é encontrada em órgãos como coração, intestino e os rins, que acabam sofrendo lesões importantes em pacientes em estado mais grave.

“Por isso dizemos que a Covid-19 é uma doença sistêmica e não apenas respiratória”, diz a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcolmo.

É certo que não possuímos ainda dados de longo prazo de um número substancial de pacientes com vários sintomas, e agora com o aparecimento das variantes a situação se torna mais difícil. É possível que muitos pacientes experimentem sequelas por muito tempo.  

Também não há um tempo de recuperação estimado. Clínicas ambulatoriais pós-Covid-19 estão se abrindo em muitos lugares. Porém, é fundamental que o cuidado dessa população tenha uma abordagem multidisciplinar, que permita um estudo abrangente dessas sequelas.

Dra. Silvia Saullo
Patologista Clínica/Clínica Médica

Referências:

  • Sequelae in Adults at 6 Months after Covid-19 infection”
    Jennifer K. Loque, BS, Nicholas M. Franko, BS, Denise J. McCulloch, MD, MPH et al. (Fevereiro/2021)
    JAMA Netw Open. 2021;4(2):e210830. doi:10.1001/jamanetworkopen.2021.0830
  • Sequelas da Covid podem persistir até em casos leves
    Anna Satie, CNN, 25 de fevereiro 2021
  • Coronavírus: A longa lista de possíveis sequelas da Covid-19
    Camilla Veras Mota, da BBC News Brasil, em SP, 12 Agosto de 2020

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