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O excesso de peso tem sido motivo de grande preocupação nos últimos tempos e, com a pandemia, tornou-se motivo de vários estudos e uma atenção especial.

Esse assunto foi bastante discutido na ENDO 2021 (Congresso da Endocrine Society) que ocorreu de forma on-line, do dia 20 a 23 de março, principal encontro de pesquisa em endocrinologia e atendimento clínico em todo o mundo. O trabalho apresentado virtualmente pela Dra. Yu Mi Kang, da Universidade de Yale, teve como objetivo determinar a associação entre obesidade com desfechos entre pacientes hospitalizados por Covid-19 em um estudo de coorte multi-hospitalar (Estudo de coorte é quando se propõe a observar, em uma população previamente definida, qual será a incidência de determinada doença ou fenômeno relacionado à saúde ou doença, durante um tempo predeterminado).

Os pesquisadores analisaram dados de 3.246 pacientes adultos hospitalizados com Covid-19 em cinco hospitais do Yale New Haven Healthy System (YNHHS) entre março e novembro de 2020. Os pacientes eram adultos (maiores de 18 anos) e tinham PCR positivo para SARSCOV-2.

A definição de obesidade utilizada foi a da Organização Mundial de Saúde, que considera obesidade um Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 29,9 (kg/m2).

Como resultado, detectaram que a prevalência de obesidade nos pacientes hospitalizados por Covid-19 foi duas vezes maior do que o peso normal (43,7% versus 22,7%). Observou-se também que a obesidade se relacionava com aumento da taxa de admissão em terapia intensiva (26,5% versus 22,5%), porém não tinha relação com o aumento da mortalidade intra-hospitalar. 

Um outro estudo feito por pesquisadores brasileiros e publicado num artigo na revista “Obesity Research & Clinical Practice” afirma que a probabilidade de uma pessoa obesa desenvolver a forma grave da Covid-19 é alta, independentemente de idade, sexo, etnia e existência de comorbidades.

O artigo de revisão sistemática da literatura científica com meta-análise* incluiu dados de nove estudos clínicos, que juntos relatam a evolução de 6.577 pacientes infectados pelo SARSCOV-2 em cinco países. Os autores concluíram que a obesidade em si é um fator que favorece a progressão rápida da doença e aumenta significativamente o risco de internação em UTI e morte. A pesquisa foi apoiada pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

*Meta-análise é uma técnica estatística desenvolvida para integrar os resultados de dois ou mais estudos independentes sobre uma mesma questão de pesquisa, combinando num resumo, os resultados desses estudos.

Vários fatores contribuem para que a infecção se agrave no obeso. Um deles é a capacidade limitada de produzir interferons (classe de proteínas secretada por células de defesa e essencial para inibir a replicação viral) e anticorpos. Além disso, o tecido adiposo funciona como um reservatório para o vírus, mantendo-o mais tempo no organismo, explica Silvia Sales Peres, professora da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru e coordenadora do estudo junto à FAPESP.

Além disso, a inflamação crônica de baixo grau, típica da obesidade – causada pelo aumento excessivo das células adiposas – faz com que a tempestade de citocinas inflamatórias desencadeadas pelo SARSCOV-2 seja ainda mais lesiva ao pulmão.

O estudo mostrou também que o risco associado à obesidade se torna ainda maior caso o indivíduo seja fumante ou tenha comorbidades como diabetes, hipertensão ou doença pulmonar, comenta Sales Peres.

Conhecer a situação de saúde da população é o primeiro passo para planejar ações e programas que reduzam a ocorrência e a gravidade dessas doenças.
Em 2006 o Ministério da Saúde implantou o Vigitel em todas as capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal, com o objetivo de monitorar a frequência e a distribuição de fatores de risco e proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) por inquérito telefônico, além de descrever a evolução anual desses indicadores em nosso meio. Essa pesquisa é realizada pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde.

O Vigitel, em 2018, indicou um crescimento de 30% na prevalência do sobrepeso na população brasileira em relação a 2006. Se consideradas apenas as pessoas entre 18 e 24 anos, o aumento foi de 55,7%.

Em 2019, a prevalência de excesso de peso foi menor nas mulheres (53,9%) do que nos homens (57,1%), com prevalência média na população de 55,4%. Por isso que discutir os riscos entre obesidade e Covid-19 passou a ter uma grande importância! Esses resultados sugerem a necessidade de políticas públicas que corroborem com a promoção de uma alimentação adequada e saudável para a população brasileira. 

A associação entre obesidade e um curso clínico mais grave de Covid-19 destaca a vulnerabilidade de nossa população durante a pandemia atual, evidenciando assim a necessidade de esforços de saúde pública para prevenir, tratar e monitorar esse grupo.

Segundo a pesquisadora Sales Peres, se faz necessário “uma mobilização transformadora para incentivar a realização de atividades físicas ao ar livre e hábitos alimentares saudáveis desde a infância, coordenada nos diferentes níveis de governo, permitindo que ocorra planejamento, financiamento e implementação de estratégias integradas para a promoção de saúde e prevenção da obesidade em nossa população.”

Dra. Silvia Saullo
Clínica Médica/Patologista Clínica

Referências:

  • Portal PEBMED – ENDO 2021: qual a relação entre obesidade e Covid-19?
    Yu Mi Kang MD, PhD Yale New Haven Health. ENDO 2021. Obesity Is Associated With Intensive Care Use and Duration of ICU Stay but Not Mortality Among 3246 Patients Hospitalized With COVID-19.
  • Secretaria da Educação/Governo do Estado de SP: Pesquisa internacional investiga a relação entre obesidade e COVID-19.
    www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1871403X2030555X?via%3Dihub#gs0005
  • Vigitel 2019: Principais resultados referentes à Obesidade, Sobrepeso e Consumo alimentar. www.observatoriodeobesidade.uerj.br