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Desde que começaram os primeiros relatos de casos de possível reinfecção pelo SARSCOV-2, iniciou-se uma investigação para compreender a fisiopatologia dessa doença. Com o acúmulo de evidências confirmando a ocorrência de reinfecção, os esclarecimentos sobre seus mecanismos de imunidade representam grandes desafios que precisamos transpor. Porém a ciência já comprovou que é possível contrair o coronavírus mais de uma vez.

O Ministério da Saúde define como “reinfecção” a situação de uma pessoa que recebeu positivo em um teste do tipo RT-PCR para o coronavírus e, 90 dias depois ou mais, novamente testou positivo, além disso, o sequenciamento do genoma das duas amostras apresentou duas cepas virais diferentes.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, até o dia 05 de abril de 2021, oito brasileiros tiveram um segundo diagnóstico de Covid-19 confirmado.

Segundo a plataforma Covid-19 Reinfection Tracker, da agência de notícias holandesa BNO News, existem 69 casos confirmados no mundo, sendo dois resultantes em morte.

Por esses números, a impressão que passa é que os episódios são raríssimos, porém existe uma subnotificação explicada parcialmente pela dificuldade em se confirmar a reinfecção com absoluta certeza.

Primeiro, o fato de exigir dois resultados positivos pelo exame de RT-PCR, num intervalo de 90 dias ou mais, entre a primeira e a segunda infecção (o que ajuda a descartar a possibilidade de o mesmo vírus ter permanecido no corpo por um longo período).

Além disso, é imprescindível realizar o sequenciamento genético do vírus nas duas ocasiões em que ele invadiu o organismo. Se levarmos em conta que são apenas 0,03% dos casos de SARSCOV-2 que passam por esse teste no Brasil (alto custo, feito em poucos lugares), entenderemos melhor a baixa estatística. No Reino Unido, essa taxa é de aproximadamente 5%.

Uma hipótese para explicar a reinfecção é a de que o sistema imunológico da pessoa por algum motivo não criou barreiras adequadas contra o vírus. Ou, se criou, com o passar do tempo, isso se perdeu.

Outro fator importante é o aparecimento das variantes. Sabe-se que o número de casos de Covid-19 cresceu muito no Brasil nos últimos meses, em paralelo ao aparecimento das variantes (principalmente P1 – também chamada variante amazônica – e P2).

Existe uma discussão em que é difícil saber se as infecções surgiram em decorrência das variantes ou se as variantes surgiram em decorrência do descontrole da pandemia.

De qualquer forma, o virologista Felipe Naveca, da Fiocruz Amazônia, afirma: “o surgimento de novas variantes é indicativo de que podemos ter mais eventos de reinfecção no futuro”.

Isso nos leva a pensar que pegar Covid-19 uma vez não livra ninguém dos cuidados diários com a pandemia (uso de máscaras, distanciamento social, hábitos de higiene etc.). Muito menos dispensa a necessidade de receber a vacina contra o coronavírus.

Aliás, mesmo depois de tomar as duas doses, ainda se deve manter o uso de máscaras e as medidas de segurança.

Com relação à gravidade, os estudos ainda não são conclusivos. Um dos primeiros relatos que compilou casos de reinfecção no mundo, publicado em outubro de 2020 no periódico científico “The Lancet Infectious Diseases”, mostrou quadros muito variados. Porém, com sintomas ou não, um paciente reinfectado pode continuar transmitindo a doença para outras pessoas.

A Fiocruz publicou em 08/04/2021, através da Agência Fiocruz de Notícias, por Cristina Azevedo, informações sobre a reinfecção por Covid-19. Fala sobre um artigo publicado na revista “Emerging Infectious Desease” (EID), do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC/EUA). Esse estudo mostra que uma primeira exposição à Covid-19 em casos brandos ou assintomáticos pode não produzir resposta imunológica e a pessoa pode se reinfectar, inclusive com a mesma variante. A segunda infecção pode provocar sintomas mais fortes do que a primeira, indica esse estudo.

O artigo chama-se “Evidência genética e resposta imunológica do hospedeiro em pessoas reinfectadas com SARSCOV-2”, coordenado pelo pesquisador Thiago Moreno, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz).

Os dados mostram que o fato de uma parcela da população ter a doença na forma branda não significa que ela adquiriu imunidade ou ainda que uma reinfecção evolua de forma benigna. O estudo indica ainda que a reinfecção pode aparecer com mais frequência do que se supõe. O indivíduo se infecta pela mesma variante, porque não teria criado uma memória imunológica. No caso de ser uma outra cepa, ela “escaparia” da vigilância e não seria reconhecida pela memória gerada anteriormente, por ser um pouco diferente na sua estrutura.

Para a pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz, Paola Cristina Resende, tudo indica que o problema da reinfecção está mais relacionado à resposta imunológica do paciente do que com o vírus em si. “A reinfecção não se dá tanto pelo vírus e o quanto ele evolui, mas pelo indivíduo e sua capacidade de produção de anticorpos contra o vírus”, afirma.

“Muita gente que acha que já pegou Covid-19 e está imune, seria como um passaporte para largar todas as medidas preventivas. A confirmação de casos de reinfecção no Brasil mostra que não: enquanto houver circulação do vírus, precisaremos manter as medidas preventivas e vai demorar um pouco mais para voltarmos à nossa vida normal”, destaca Resende.

Dra. Silvia Saullo

Patologista Clínica/Clínica Médica

Referências:

1. COVID-19 e o risco de reinfecção. PEBMED/Clínica Médica. Publicado em 30/Abril/2021. Covid-19 e o risco de reinfecção – PEBMED.

2. Observatório de Tecnologias relacionadas à Covid-19. Publicado em 28/04/2021. Ciência — Português (Brasil), (www.gov.br).

3. Reinfecção por Covid-19 pode vir acompanhada de sintomas mais fortes. Publicado em 08/04/2021

4. Quatro pontos para entender a reinfecção pela Covid-19, agora confirmada no Brasil. Publicada em 22/12/2020. BBC News Brasil.

5. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial versão impressa ISSN 1676-2444, versão On-line ISSN 1678-4774. J. Bras. Patol. Med. Lab. vol. 56.  Rio de Janeiro, 2020. Epub 01-Jul-2020. https://doi.org/10.5935/1676-2444.20200049.

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